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Sócrates

Um filme de Roberto Rosselini que mostra a história de Sócrates (470-333 a.C)





COMENTÁRIO DO FILME SÓCRATES DE ROBERTO ROSSELLINI POR
ROBERTO BOLZANI PROFESSOR DE FILOSOFIA (USP)


Estudioso dos diálogos de Platão, acha a figura de Sócrates um pouco controvérsia, por não ter deixado nada escrito. Diz que existem poucas fontes que falam sobre ele, Platão, Xenofonte e Aristófanes (Foi um crítico de Sócrates e aparece no vídeo). Roberto Rossellini se inspira o filme, evidentemente, nos diálogos de Platão. Ele escolhe alguns desses diálogos onde a figura de Sócrates é muito marcante. Alguns deles não só apresentam os diálogos como apresenta alguns dos acontecimentos da vida de Sócrates.
O mais antigo dos textos é o chamado Apologia de Sócrates que não é um texto dialogado, é um texto de prosa corrida no qual Platão estaria relatando o discurso de Sócrates em sua própria defesa no tribunal quando ele foi acusado de corrupção da juventude e por negar os deuses da cidade, introduzindo deuses novos. Acusação feita por Meleto e Ânito.
Os diálogos são geralmente breves, curtos e provavelmente inspirados na figura de Sócrates. Conhecidos como Diálogos Socráticos ou Diálogos de Juventude de Platão.
Destes diálogo, há um muito importante para o filme, o “Críton”, pois nele, Platão cria como cenário a prisão onde Sócrates já está com a sua condenação e na qual ele recebe Críton que é o amigo mais antigo dele.
Os outros diálogos são também chamados de Aporéticos, pois termina em aporia que significa, em grego, sem ter uma solução, sem saída. E parece que de fato, a intenção dele não é oferecer solução para os problemas que é investigado pelas personagens, mas, criar uma situação de dúvida insolúvel.
Outro diálogo que o filme explora é o Fédon que já é um diálogo considerado de maturidade de Platão. Cujos cenários, é a vida final de Sócrates, quando ele na prisão recebe os discípulos pela última vez, está preste a tomar o veneno que vai lhe matar, a cicuta, e aí ele defende a tese junto com os seus discípulos que ele não morrerá de verdade, a sua alma, ou seja, ele mesmo enquanto alma sobrevive a morte do corpo, que é uma tese de enorme influência posterior no cristianismo, mas que provavelmente não é uma tese socrática, mas uma tese platônica.
Rossellini elege esses três diálogos como roteiro básico do filme. Mas aparece também passagens de outros diálogos, por exemplo, no momento em que ele é comunicado pelos discípulos que ele foi acusado, ele vai ao tribunal e se depara com duas pessoas, Hípias que é um Sofistas, considerado importante porque eles fazem um contraponto a figura socrática. Sócrates é uma espécie de herói nos diálogos, e o sofista uma espécie de vilão. Estes professam um saber que Sócrates diz ser um falso saber.
Hípias, Protágoras, Gógias, que chegam a serem mencionados no filme eram professores de retórica. Eles ensinavam aos jovens diante de um certo pagamento, a usar bem os discursos nas assembleias. Então os sofistas tinham um papel muito importante na construção da carreira política dos jovens cidadãos, sobretudo em Atenas, que é uma democracia onde o uso da palavra é livre ao cidadão, portanto ter um domínio da retórica era uma forma muito eficaz de uma boa carreira pública.
Sócrates contrapunha a eles, o que ele considerava investigação da verdade com essa maneira sofística de utilizar o discurso como um instrumento retórico. Claro que, historicamente, essas diferenças não eram tão grandes quanto as que Platão descreve em seu diálogo.
Hípias cruza com Sócrates no caminho quando ele ia até o tribunal e nesse momento o roteiro de maneira muito sucinta retoma o conteúdo do diálogo, e nesse diálogo o tema é a noção de belo. Mas, aí o belo não tem só um conceito estético, tem também um aspecto moral. O grego quando queria falar de uma ação moralmente boa ele usava o adjetivo belo. Mesmo em Português eu posso dizer: “isso é uma bela ação”. E o tema da beleza então é posto. Hípias sabe o que é belo, aliás Hípias diz que sabe qualquer assunto, ele é bastante pretensioso e Sócrates começa a desenvolver o seu estilo argumentativo e interrogativo e pergunta a Hípias o que é o belo? Hípias responde o que é o belo de uma maneira que não responde de fato a pergunta porque ele responde  que o belo é uma bela moça. Sócrates então mostra a ele que uma bela moça não responde a pergunta o que é o belo porque existe outras coisas belas além de belas moças, belas éguas e ele chega a dizer belas panelas. Até uma panela pode ser bela! Então responder essa pergunta é responder o belo que torna belo a bela moça que torna belo a bela égua e que torna belo a bela panela. Esta é a questão fundamental dos diálogos socráticos de Platão. A busca de uma verdade universal para o conceito. Geralmente esses conceitos são conceitos morais. Quando Sócrates mostra a Hípias que ele não responde a pergunta ele diz que está atrasado e vai embora.
Chegando no tribunal Sócrates encontra Eutífron, que é um personagem de outro diálogo de Platão. E ali se desenvolve outro diálogo sobre a noção de piedade. E Sócrates pergunta a ele o que fazia no tribunal e ele diz que veio acusar o pai porque este assassinou um dos escravos dele. Eutífron é um sacerdote. Sócrates pergunta a ele o que é um piedoso e ele responde que o piedoso era o que ele ia fazer agora acusando o pai no tribunal. Ele dá uma resposta que novamente não responde a pergunta do que é piedoso, porque o piedoso tem que ser algo que está presente em todas as ações piedosas, e não somente naquela ação particular.
Isso, em menos de 5 minutos de filme, Rossellini sintetiza e dá ao espectador a ideia do que teria sido o famoso método interrogativo socrático que mostrava buscar para o interlocutor que não sabia o que imaginava saber e ao mesmo tempo mostrava a este interlocutor responder a pergunta o que é num determinado conceito, não pode ser apresentado um exemplo, mas tem que ser o que mais tarde se chamou uma definição universal. Disso, Platão vai tirar toda a sua filosofia pessoal, essa busca de definições universais.
Isso muito rapidamente Rossellini no filme introduz de maneira muito clara, claro que quem conhece os diálogos identifica rapidamente esses diálogos, mas, de maneira muita clara e sucinta é que apenas no caminho da casa de Sócrates até o tribunal ele embutiu esses dois breves diálogos.
Tem um momento no filme em que Rossellini faria uma associação muito interessante, quando ele associa a acusação feita por Sócrates no tribunal a uma ideia que aparece num diálogo posterior que é o Fédon que já é um diálogo de maturidade de Platão, no qual Platão faz uma famosa crítica a escrita, valorizando a oralidade. Esse diálogo Fédon, Platão diz que o ensino da filosofia é muito mais eficaz oralmente do que por escrito. Que o texto escrito é um texto congelado é incapaz de reformular-se, ele está fixo enquanto que a oralidade na sua flexibilidade permite uma correção, uma reformulação. Isto na verdade pode ser visto como um grande elogio do método socrático, da interrogação oral. Lembrando que Sócrates não deixou nada escrito, é possível que Sócrates tenha defendido essa tese. E a oralidade é um instrumento muito mais eficaz, filosófico do que propriamente o texto escrito.
Isso é uma pequena fala de Sócrates, que retoma no fim do diálogo Fédon. Basicamente são esses diálogos que aparecem com clareza. Aparecem certas teses socráticas que estão espalhadas nesses diálogos. Por exemplo:
Sócrates teria defendido nos diálogos a tese de que a virtude moral é um tipo de conhecimento, que quem detém um conhecimento do que é uma virtude, por causa desse conhecimento, da posse desse conhecimento agirá de maneira virtuosa. Essa é uma tese muito importante, a de que a virtude moral, a moralidade da ação do indivíduo resulta da posse de um saber que o indivíduo possui. Por isso, então é preciso descobrir a resposta a pergunta: o que é a virtude? O que é a piedade? O que é a moderação? O que é a justiça? Porque somente sabendo o que são essas virtudes se poderá agir virtuosamente.
Uma outra tese que Sócrates teria defendido, segundo esses diálogos de Platão, que é uma tese que Platão vai retomar que tem uma enorme importância na sua filosofia é a de que há um saber político na cidade que não pode ser diferente de uma competência reconhecida por exemplo para um técnico. Então tem um momento do filme que Rossellini retoma um argumento usado por Sócrates que é mais ou menos o seguinte: se nós tivéssemos de navegar, viajar de navio, ele pergunta ao seu interlocutor, nós vamos escolher quem para pilotar o navio, a resposta é evidentemente: o piloto do navio. E, por quê? Porque nós reconhecemos nele um saber do que é pilotar um navio. Nós não vamos pedir ao carpinteiro que pilote o nosso navio, se nós tivéssemos que fazer mesa e cadeiras pediremos ao carpinteiro que as faça porque ele detém um saber sobre isso.
O que Sócrates diz é que na vida política é a mesma coisa que devemos pensar de quem deve governar a cidade é quem detém o saber sobre o que é governar a cidade. Assim como o piloto do navio detém um saber de como pilotar um navio. Foi uma tese muito importante para Platão porque ela é uma crítica a democracia ateniense. Na concepção da democracia ateniense todo e qualquer cidadão sabe governar. O que Sócrates está introduzindo aí é uma crítica dessa ideia. Governar bem é possuir um certo saber, um saber moral, que legitima que determinados indivíduos sejam governantes na cidade.
Outra tese que Sócrates queria defender também, que é uma tese muito interessante e difícil, é a de que cometer uma injustiça prejudica mais aquele que comete a injustiça do que aquele que sofre a ação da justiça. Essa é uma tese que aparece em vários diálogos de Platão, e um deles é atribuída a Sócrates. Que é preferível ser injustiçado a cometer injustiça.
Essas teses todas aparecem muito fluidas nos diálogos. Na verdade, provavelmente Sócrates não tinha uma doutrina acabada sobre essas teses. Ele deve tê-las utilizado com o objetivo fundamental dele, que era mostrar ao interlocutor que o interlocutor não possuía o saber que ele imaginava possuir. E isso nos leva talvez ao texto central sobre Sócrates que é a Apologia de Sócrates.
A Apologia de Sócrates, como já havia dito ela é o texto de juventude de Platão, no qual ele relata a defesa que Sócrates faz no tribunal. E ali Sócrates tem um episódio famoso que inclusive você vê no filme explorar largamente o que é o oráculo de Apolo.
Segundo Sócrates conta, um amigo dele foi até a cidade de Delfos que é onde fica o oráculo do Deus de Apolo. O oráculo era um templo qual fica uma sacerdotisa, a Pítia, que é encarregada de responder as perguntas feitas pelos homens e ela responde pelo deus Apolo.
A resposta dada por ela é a resposta da própria divindade. E esse amigo de Sócrates pergunta a ela: Existe alguém mais sábio do que Sócrates? E ela respondeu que não. Então o deus Apolo responde que não. Sócrates diz eu não entendi porque a única coisa eu que sei é que não sei nada, então o deus está enganado. Vou provar que o deus está enganado. E aí ele diz vou procurar na cidade aqueles que são considerados sábios na cidade. Portanto, ele vai testar a afirmação que a divindade faz sobre o seu saber com aquilo que os homens na cidade julgam ser o saber. E ele então procurará políticos, poetas e artesãos. Ora, diz Sócrates então que interrogando esses indivíduos ele constata que todos eles imaginavam possuir um saber que não possuíam. Que ele, Sócrates, tinha um saber, que eles não tinham, que era o fato de que eles não sabiam nada, que ele estava consciente de que não sabia nada. Então a sabedoria socrática é a consciência da ignorância. E a ignorância dos pretensos sábios está na presunção de possuir um saber que não possui.
Sócrates diz, essas interrogações que eu fiz produziram vários inimigos para mim, porque os homens que diziam saber algo, quando eu mostrava que eles não sabiam, passavam a me odiar e provavelmente por trás desse ódio está a acusação a que ele é submetido no tribunal. Ele é acusado porque , ganhou muitos inimigos com essas sua investigação E ele termina neste trecho da Apologia dizendo: A partir deste momento eu me tornei um auxiliar de Apolo, um assistente de Apolo, ou seja, eu passei a interrogar qualquer indivíduo para mostrar que ele pensava ter um saber que de fato não tinha e aí diz Sócrates a minha vida toda eu passei afastado da vida pública, sem nenhuma pretensão política, pobre, sem nenhuma preocupação em acumular riquezas, interrogando todo e qualquer individuo que diante de mim professasse algum tipo de sabedoria para mostrar a ele que ele não tinha saber nenhum.
Por isso, então os diálogos de Platão, diálogos de juventude, são todos eles sem uma solução, porque aí a intenção de Sócrates não era solucionar, a intenção de Sócrates teria sido produzir no interlocutor a consciência de que aquele saber de que ele imaginava possuir era falso saber.
Num dos diálogos de velhice de Platão, chamado Teeteto, Platão vai descrever esse método socrático se valendo, e aí já é difícil saber se foi  Sócrates ou Platão, se valendo de um fato interessante.
Sócrates era filho de uma parteira e de um escultor e nesse diálogo, Sócrates afirma que o que ele faz com os interlocutores é o mesmo que a mãe fazia com as mulheres ao ajudar a dar a luz. Ele dizia mesmo que interrogando os seus interlocutores ele não produzia nenhum saber nos interlocutores, ele apenas ajudava seus interlocutores a trazerem a luz alguma verdade que eles possuíssem na sua alma. Chamava-se de parteiro como sua mãe. A palavra grega para a arte da parteira é maiêutica e daí vem uma expressão que é muito conhecida que é a maiêutica socrática. Esse método interrogativo de que auxiliava o interlocutor a trazer para a sua própria consciência as verdades ou falsidades que eles possuíam na sua alma. É um método eminentemente, negativo, interrogativo, portanto muito provocativo. E o filme do Rossellini deixou isso muito claro.
Sócrates raramente responde alguma objeção com afirmações decisivas ele levanta sempre perguntas que levariam ao seu interlocutor a se convencer naquilo que ele acha que o interlocutor deve aceitar. É um estilo de Filosofia eminentemente interrogativo.
Fazer um filme sobre Sócrates, na Itália em 1970 e de uma maneira muito sólida, porque é muito evidente de que Rossellini tem uma formação humanística muito rica, que conhece os diálogos de Platão, tem um apelo muito interessante, porque Sócrates citou na história da filosofia uma espécie de exemplo paradigmático do intelectual que se contrapõe aos poderes estabelecidos. Algo que é muito forte na Europa numa época em que Rossellini faz o filme.
Esse tema da relação entre o intelectual e o poder. E Sócrates é claramente o indivíduo que prefere manter as suas convicções, mesmo que isso lhe custe a vida, porque o que há de mais impressionante no caso Sócrates é que quando ele é julgado e condenado é costume no tribunal ateniense que o condenado tenha o direito de propor uma pena, quando ele é condenado a morte, a propor uma pena alternativa. Normalmente, composta em uma multa em dinheiro, um valor alto. Sócrates diz, eu não me considero culpado de nada, ao contrário esse trabalho que eu faço de interrogação é um benefício que eu faço para os homens, portanto eu não posso propor para mim pena nenhuma porque estaria admitindo que eu teria uma culpa. E aí de uma maneira muito irônica ele diz, proponho que a cidade me sustente como ela sustenta os vencedores nos jogos olímpicos, porque eles se consideram alguém que deve ser sustentado pela cidade porque pelo que ele faz pela cidade é benéfico a cidade. Ora, ao dizer isso, ironicamente, ele obriga o tribunal a condená-lo a morte. O tribunal não tem alternativa agora a não ser condená-lo a morte. O que significa que entre entrar em contradição com a sua própria vida e salvar sua vida ele preferiu manter a sua coerência. Tem uma fala no filme que Sócrates diz “nisso eu não vou negar as minhas convicções da vida toda”, ele prefere ser condenado a morte do que ter que negar essas suas convicções.
E aí ele se torna uma espécie de símbolo desta maneira de ver a vida interior de um intelectual que ele considera mais importante do que qualquer concessão que ele tenha de fazer aos poderes estabelecidos.
Sócrates nunca foi um desobediente a lei. Tanto que no diálogo Críton, quando Críton propões a ele fuga da prisão ele diz eu fui condenado pela lei, pela cidade, eu não vou fugir da prisão, o que seria cometer uma injustiça. Portanto, ele é um legalista, ele obedece a lei.
Mas, quando a lei o obriga a ir contra a suas convicções, essas convicções para ele são mais importantes do que qualquer desejo legal da cidade.
É interessante de que no momento, que esse tema é muito forte, na cultura europeia do papel intelectual na cidade que esse filme seja feito e que haja um destaque muito claro para isso um conflito entre a convicção do intelectual e aquilo que o poder estabelecido exige desse indivíduo.
Há, portanto um contraste muito forte entre o indivíduo e a cidade, o indivíduo e o poder público e o episódio socrático é um episódio no qual o valor, a vida interior intelectual ela é superior a qualquer tipo de imposição dos poderes estabelecidos.

Isso é um tema atemporal, época de Sócrates, época de Rossellini, da nossa época. Qual é o papel da reflexão do livre pensamento numa cidade, num país. O intelectual deve ter um papel na vida pública e que tipo de papel ele deve ter. Ele deve se engajar partidariamente ou não, são temas que fazem parte das nossas preocupações de certa maneira Sócrates é o exemplo paradigmático dessa visão da relação do indivíduo e a cidade.

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