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As correntes filosóficas



AS CORRENTES FILOSÓFICAS


OS IDEALISTAS

Os idealistas acreditam que o mundo externo e material é produzido pela mente ou pelas ideias, de que não pode existir separadamente. A realidade, por conseguinte, começa dentro da mente e não fora dela.




PLATÃO (428-354 a.C)




Para PLATÃO, tudo no mundo material deve sua existência a uma ideia perfeita, eterna e imutável a partir da qual é modelado. Ele chamou essas ideias de “formas”. Formas de noções abstratas, como coragem e justiça, servem de ideal para as pessoas, que se esforçam por alcançá-las. Assim como imaginamos um cavalo ideal, perfeito, podemos imaginar um ideal de justiça e nos esforçarmos para alcançá-lo.
A “forma” ideal mais famosa de Platão é sua ideia de uma sociedade ideal, que ele descreveu no diálogo “A República”. Neste, Platão expressou firmes opiniões sobre a estrutura da sociedade. Ele acreditava que as pessoas se dividem em tipos. Algumas não são especialmente brilhantes e nunca poderão esperar ocupar posições importantes. Ele disse que essas pessoas têm alma de bronze e se destinam à agricultura e outros trabalhos. Platão rotulou esse grupo de “trabalhadores”. Acima dele estão aqueles com alma de prata: essas pessoas possuem alguns talentos e podem vir a ser importantes para a sociedade, sendo mais adequadas a policiar e a proteger o Estado. Platão chamou esse grupo de “soldados”. No alto da escada estão aquelas pessoas com alma de ouro, que têm a inteligência e a educação necessárias para se tornar filósofos e governantes — os “guardiães”.
Platão argumentou que os filósofos são os melhores líderes porque são sábios e têm menos probabilidade de se comportar irracionalmente. Ele acreditava que o Estado permaneceria estável e justo com filósofos no poder. Sua sociedade ideal é uma estrutura ordenada, onde as pessoas permanecem fixas em seus papéis. Todas são treinadas até o limite de sua habilidade, que garante sua posição na vida. Seria impróprio um agricultor governar o Estado ou um filósofo trabalhar a terra.
Platão considerava mulheres e homens igualmente capazes de governar. Mas também achava que os homens tendem a fazer as coisas melhor. Entretanto, sua concepção sobre a igualdade entre homens e mulheres era revolucionária para seu tempo.
O Estado ideal de Platão é uma sociedade controlada. A tentação de ganância — um dos maiores males da sociedade — desapareceria ao ser abolida a propriedade privada. Para evitar que as pessoas tornassem o Estado menos importante que suas famílias, todas as crianças seriam levadas após o nascimento, sem nunca conhecer seus verdadeiros pais. As crianças seriam criadas pelo Estado e levadas a pensar em todos como seu próprio pai e mãe. Os governantes também determinariam quem se casaria com quem.

BERKELEY

O bispo George Berkeley (1685-1753) foi um personagem fascinante. Ele escreveu sua filosofia quando tinha por volta de 20 anos e, mais tarde, se tornou bispo e se interessou pela educação universitária nas colônias americanas (onde viveu por algum tempo), deixando seus livros para a YaIe University.
Berkeley defendia o idealismo, a ideia de que tudo o que existe é mental. Isso parece improvável, mas é uma ideia derivada da maneira como percebemos as coisas. Um idealista pode argumentar o seguinte:
» Tudo o que realmente sabemos sobre o mundo são sensações (cor, som, gosto, tato, a posição relativa das coisas). Não possuímos nenhuma outra maneira de perceber o mundo. Para nós, essas sensações traduzem o conceito de ”o mundo’
» Todas essas sensações são ”ideias”, fenômenos mentais (a cor vermelha só existe porque nossa mente percebe coisas vermelhas).

» Logo, as coisas são coleções de ideias que só existem quando são percebidas,
Berkeley também argumentava que ideias abstratas e gerais não existem. Se você pensa em um triângulo, está pensando em um triângulo específico. Ele compartilha características com outros triângulos, mas não existe um conceito de triangulo que não seja derivado de algum outro triângulo específico. O que nós consideramos “universal” é apenas um conjunto de qualidades derivadas de coisas específicas.


GEORGE WILHELM FRIEDRICH HEGEL




 (1770-1831) filósofo alemão

HEGEL desenvolveu um consistente sistema filosófico para explicar a realidade. Ele sustentou que o universo e tudo dentro dele está interligado. Disse que a realidade é o produto de uma mente cósmica. E uma ideia em movimento — e toda a história pode ser explicada pelo desenvolvimento dessa ideia. Para ele, a história só poderia ser entendida se cada era fosse vista como uma pequena peça de um enorme quebra-cabeça. Isso constitui uma visão radical da história. A visão tradicional é que a história resulta de mudanças nas circunstâncias materiais das pessoas. Por exemplo, uma nova tecnologia pode mudar a forma como as pessoas se comunicam ou fazem guerra. De acordo com Hegel, essas mudanças materiais na sociedade são os efeitos de um profundo processo de mudança. Ele sustentou que esse processo profundo é “uma ideia que realiza a si mesma”.
Hegel afirmou que essa ideia cósmica se desenvolve em padrões fixos, que ele chamou de “dialética”. Esse é um processo triplo: primeiro, um argumento, ou “tese”, é apresentado; surge então um argumento oposto, ou “antítese”; e, depois de muita luta, uma conclusão é alcançada, conhecida como “síntese”. Essa conclusão torna-se então a nova ‘tese”, e todo o processo recomeça, ad infinitum. Na opinião de Hegel, cada grande era da história do mundo começa como uma síntese de forças opostas à era precedente. Essas forças opostas (teses e antíteses) acabam destruindo o momento histórico, mas uma era nova e melhor se ergue das cinzas.
A “dialética” é o motor que movimenta o sistema de Hegel. Ele demonstrou que o processo dialético escora toda a história, inclusive a história do pensamento. Hegel argumentou que, a cada era, as pessoas desenvolvem um conhecimento melhor sobre o mundo. Hoje, a prova de Hegel desse desenvolvimento seria que a ciência moderna e a tecnologia dão uma imagem mais precisa de como o universo funciona do que davam cinqüenta anos atrás. No futuro, esse conhecimento terá se desenvolvido ainda mais.
Para Hegel, a história caminha para o conhecimento completo. O processo dialético terminará numa “síntese” final que revelará a mente de Deus.

OS MATERIALISTAS



Os materialistas têm uma visão completamente oposta à dos idealistas sobre a natureza da realidade. Os materialistas acreditam que tudo o que existe é matéria ou depende da matéria para existir O mundo real está fora de nós, não em nossa mente.




ARISTÓTELES (384-322 a.C) filósofo grego

ARISTÓTELES foi o primeiro grande crítico de Platão. Ele acreditava que Platão tinha invertido as coisas ao dizer que a “forma”, ou a ideia, de uma coisa é o que é mais real. Ele disse que as coisas materiais são a realidade e que sua forma é uma parte da realidade. Aristóteles sustentou que a realidade é feita de muitas coisas diferentes, que chamou de “substâncias”. Qualquer substância é uma fusão de “ideia disso” (de que é feito) e “ideia do que é”(sua forma ou o que é). Por exemplo, a “ideia disso” de uma cadeira de madeira é a madeira a partir da qual a cadeira foi feita. A madeira é modelada, ou recebe a forma do que é: uma cadeira.
Aristóteles também criticou as formas de Platão porque não explicavam como as coisas mudam. Isso o levou a desenvolver sua própria teoria sobre a mudança. Ele concluiu que toda substância tem uma “potencialidade” inerente. Com isso, quis dizer que as coisas têm dentro delas o potencial de transformação. Por exemplo, a água tem o potencial de se transformar em gelo e também em vapor.
Aristóteles também discordou de Platão quanto à ideia de que a alma é separada do corpo. Argumentou que todas as coisas vivas têm uma alma, que as anima e que as torna diferentes de substâncias como pedra ou água. O tipo de alma que alguma coisa possui corresponde ao que faz e ao que necessita. Os organismos mais inferiores, como as plantas, precisam apenas ser alimentados e se reproduzir. Os animais têm sentimentos, portanto há um aspecto sensível em suas almas. As pessoas são bem mais complicadas e sua alma tem muitas outras dimensões. Aristóteles afirmou que as coisas vivas são diferentes porque sua alma é feita de material diferente. Ele também julgou que as almas perecem quando as coisas vivas morrem. Entretanto, ele identificou um aspecto da alma humana capaz de sobreviver à morte. Esse aspecto é o pensamento ou a razão. Aristóteles não encontrou uma base física para os pensamentos que se impõem (ou “forma”) na mente.
Assim como Sócrates, Aristóteles acreditava que as pessoas deveriam Se esforçar para ser boas. Ele desenvolveu um “teste de significados” para que as pessoas pudessem aperfeiçoar suas virtudes.
Argumentou que a virtude real repousa na moderação, entre fazer demais alguma coisa e não fazê-la suficientemente. Por exemplo, ser corajoso é o meio-termo entre ser audacioso e ser covarde.
Este “meio-termo de ouro” também se reflete nas opiniões de Aristóteles sobre política. Diferentemente de Platão, que acreditava em uma elite de filósofos governantes, Aristóteles acreditava que um grupo intermediário forte deveria estar no comando, criando assim um equilíbrio entre a tirania e a democracia.
A incansável pesquisa de Aristóteles sobre o mundo ao seu redor levou-o a desenvolver o primeiro sistema de lógica da filosofia ocidental. Ele quis transformar o argumento em uma ferramenta para verificar a verdade das coisas. A característica central do método de Aristóteles é o “silogismo”. Um exemplo simples é: Todos os homens são mortais. Sócrates é um homem. Portanto Sócrates é mortal. Isso mostra como duas colocações indiscutíveis podem produzir uma conclusão.





KARL MARX (1818-1883)

MARX foi muito influenciado por Hegel. Entretanto, discordou dele quanto à sua posição de que a história é o resultado do desenvolvimento de uma ideia. Marx pensava que a história é um processo material. Ele argumentava que são as mudanças na maneira como as pessoas vivem que as levam a desenvolver novas ideias, e não o contrário.
Marx concordava com a opinião de Hegel de que a história atravessa vários estágios. Ele acreditava que o último estágio da história, o capitalismo, seria superado. Marx sonhava com uma sociedade melhor, na qual o dinheiro não governaria e tudo seria dividido. Um de seus textos mais famosos é “O Manifesto Comunista”. Nesse pequeno livro ele argumenta que o capitalismo escraviza as pessoas, e chama aqueles que trabalham por dinheiro de “escravos do salário”, forçados a produzir bens que provavelmente nunca usarão.

OS ESCOLÁSTICOS

Os escolásticos eram pensadores cristãos que tentaram entender e explicar as doutrinas cristãs à luz da antiga filosofia grega. Os pensadores cristãos que viveram nos primeiros séculos após o nascimento de Cristo eram conhecidos como “Pais da Igreja”. A escolástica dominou a filosofia ocidental por centenas de anos.


SANTO AGOSTINHO (354-430)




SANTO AGOSTINHO nasceu no norte da África e estudou na Itália. Foi muito influenciado pelas ideias de Platão. Agostinho procurou combinar sua fé cristã com a razão. Acreditava que compreender é uma recompensa pela fé, e que a alma humana mantinha latentes algumas verdades últimas e eternas.
Agostinho era muito interessado na natureza do tempo. Achava que o tempo começou quando Deus criou o mundo — o que suscita a questão da existência de Deus antes do tempo. A resposta de Agostinho foi que Deus reside em um eterno presente, fora do tempo terrestre. Isso o levou à teoria de que “agora” é tudo o que realmente existe.
O passado é uma memória presente, e o futuro é uma expectativa do presente. Essa opinião lhe permitiu enfatizar que é mais importante o que as pessoas estão fazendo para Deus e não o que farão.

TOMÁS DE AQUINO (1225-1274)




TOMÁS DE AQUINO elaborou cinco provas para demonstrar a existência de Deus. A primeira prova é que a mudança está em toda parte, portanto algo deve causá-la. (Deve ser Deus.) A segunda prova é que as coisas acontecem, portanto deve haver uma causa. (Deus, que é a causa primeira, deve provocar o acontecimento das coisas.) A terceira prova é que tudo na natureza é interdependente. (Como isso pode ser explicado sem concluirmos que há um Deus independente da natureza?) A quarta prova é a pergunta da harmonia na natureza: por exemplo, quem deu guelras aos peixes para que pudessem respirar na água? (Apenas Deus poderia fazê-lo.) A quinta prova são os graus de excelência que podem ser observados na natureza. (Isso envolve a noção de perfeição e, portanto um ser perfeito: Deus.) Tomás de Aquino apresentou essas provas em seu livro “Summa Contra Gentiles” (Suma contra os pagãos), o primeiro dos dois densos volumes que ele escreveu. A intenção deste primeiro livro era provar através da razão a importância de ser cristão aos não-cristãos.


OS RACIONALISTAS


Os racionalistas consideram que as verdades sobre a realidade só podem ser reveladas através da razão, e não pelo que os sentidos nos apresentam sobre o mundo.


PARMÊNIDES (501-492 a.C.)




PARMÊNIDES pode ser considerado o primeiro racionalista porque afirmou que o mundo material só poderia ser propriamente compreendido através do pensamento e da razão, e não através dos sentidos.
As ideias de Parmênides sobreviveram nos fragmentos de um longo poema que ele escreveu. O poema tem dois temas principais: “O caminho da verdade” (o que a razão nos revela sobre o mundo) e “O caminho da aparência” (o que nossos sentidos nos revelam). Parmênides argumentou que o pensar e o ser (existir) são um e iguais, isto é, que é impossível pensar em uma coisa que não exista. Sua lógica era de que “nada” só se pode pensar se for o pensamento de “algo”. Portanto, “nada”, ou “não ser”, não é possível — só pode haver o “ser”. No mesmo poema Parmênides argumenta que o tempo é uma ilusão. Ele disse que o passado e o futuro não existem, pois só podem ser pensados no presente.



RENÉ DESCARTES (1596-1650)





DESCARTES é considerado o primeiro filósofo “moderno”. Ele quebrou a supremacia da escolástica na filosofia ao questionar tudo o que tinha aprendido. Descartes era um cientista. Isso deu a ele o desejo de estabelecer um sistema dedutivo de conhecimento que forneceria as verdades lógicas e necessárias sobre o universo.
Em seu livro “As meditações”, Descartes pôs-se a descobrir uma base firme para seu sistema. Ele se deu conta de que tudo o que conhecia havia apreendido a partir de seus sentidos. Mas ele questionava se era sensato confiar em um conhecimento mentiroso. Como poderia confiar em seus sentidos quando, por exemplo, um remo parece dobrar-se na água? O método de Descartes era duvidar de tudo sistematicamente. Tudo o que restasse era o conhecimento seguro que ele poderia pensar, mesmo que estivesse apenas sonhando que estivesse pensando. Essa era a pedra fundamental para seu novo sistema de conhecimento. A primeira dedução a que chegou a partir de sua verdade inquestionável foi que, em virtude do pensamento, ele existia. Entretanto, acreditou estar em uma sinuca filosófica. Como poderia provar que o mundo exterior também existia? Como poderia confiar no que percebia sobre o mundo? A única solução era provar a existência de Deus — só então ele deduziu que seus sentidos, dados por Deus, mereciam confiança. Muitos filósofos consideram que o pensamento de Descartes se enfraquece nesse ponto.
Descartes elaborou dois argumentos para provar a existência de Deus. O primeiro foi que ele (Descartes), em virtude de suas dúvidas, era um ser imperfeito. Entretanto, imperfeito como era, ainda poderia manter a ideia de um ser perfeito: Deus. Só um ser perfeito poderia ser a causa de uma ideia tão perfeita. Portanto Deus deve existir. O segundo argumento Descartes argumenta que a ideia de um ser perfeito contém perfeição em todos os graus. Portanto a ideia de Deus deve conter a existência de Deus. Tendo “provado” a existência de Deus, Descartes não precisou mais considerar que o mundo poderia ser o produto de um gênio diabólico. Ele concluiu que um ser perfeito não permitiria tal coisa. Descartes ainda tinha de descobrir como conhecia o mundo. Como ser pensante, raciocinou que seus sentidos, dados por Deus, não o decepcionariam se fossem apropriadamente empregados. Ele deduziu que foi com a mente, ou a razão, que aprendeu a verdade sobre o mundo. Quando ele derretia cera, ela tinha forma, consistência e cheiro diferente, mas em sua mente ele não duvidava de que aquela substância ainda fosse cera.
O alicerce do sistema racional de Descartes foi sua afirmação “Penso, logo existo” (do latim: cogito ergo sum). Com ele Descartes identificou a mente como algo separado da matéria. Assim, ficou conhecido como um filósofo “dualista”, isto é, para ele o mundo consistia de duas substâncias distintas: mente e matéria. A propriedade essencial da mente é a consciência, enquanto a propriedade essencial da matéria é a “extensão” no espaço, no qual tem comprimento, altura e profundidade. Em sua opinião, toda matéria, inclusive o corpo humano, não tem mente. Todas as coisas vivas são apenas matéria em movimento. Essa filosofia dualista deixou Descartes com o problema de explicar como mente e corpo se uniram para formar uma pessoa. Ele teorizou que as impressões duplas —recebidas pela virtude de ter duas orelhas, dois olhos, duas mãos (e assim por diante) — estavam unidas à consciência em uma glândula no cérebro. Essa teoria foi muito debatida, mesmo antes da morte de Descartes, e ele estava consciente da natureza insatisfatória de sua conclusão. Uma das pessoas que questionou sua teoria foi a rainha Cristina da Suécia. Ela também discordou de Descartes quanto aos animais não terem mente, pois já tinha observado muito seus animais de estimação.

RENÉ DESCARTES  1596 – 1650  filósofo, físico e matemático francês “Cogito ergo sum” = Penso, logo existo.

A EVIDÊNCIA  POR CLAREZA
“O primeiro (Evidência) será o de nunca aceitar nada por ver¬dadeiro que o não reconheça evidentemente como tal, vale por dizer, evitar cuidadosa¬mente a precipitação e a pre¬venção e não englobar nada mais nos meus juízos do que aquilo que se apresente tão cla¬ramente e tão distintamente ao meu espírito, que eu não venha a ter nenhuma oportunidade de o pôr em dúvida.”

A ANÁLISE
“O segundo, (Reducionismo) de dividir cada dificuldade a examinar em tantas quantas as parcelas possíveis, de forma a melhor a resolver”.

CAUSALISMO LINEAR
“O terceiro, de seguir por or¬dem os meus pensamentos, começando pelos objectos mais simples e os mais acessíveis de conhecer, para subir pouco a pouco como por degraus até ao conhecimento dos mais com¬postos, e supondo ordem mes¬mo entre aqueles que não são de modo algum precedentes uns dos outros.
Estas longas correntes de razões bem simples e fáceis, de que os geómetras têm o hábito de se servir para alcançar as suas mais difíceis demonstrações, tinham me dado ocasião de imaginar que todas as coisas que podem cair sob a alçada do conheci¬mento dos homens se entre-seguem da mesma maneira”

O PRINCÍPIO DA ENUMERAÇÃO
“E o último (princípio), o de fazer em toda parte enumera¬ções tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a cer¬teza de nada omitir.”

GIAMBATTISTA VICO 1668 —1744 filósofo italiano




“Pois que o Método cartesiano prejudica o engenho e o engenho foi dado aos seres humanos para compreender, isto é, para fazer intencionalmente” (G. Vico, 1710)

BARUCH SPINOZA (1632-1677)



Assim como DESCARTES, Spinoza acreditava que a razão era a verdadeira fonte de todo o conhecimento. Como Descartes, ele era brilhante em matemática e geometria, e concordava que a filosofia deveria tentar copiar os métodos de dedução dessas ciências. O objetivo de Spinoza era construir a “geometria da filosofia”. Em seu livro mais importante, “A Ética”, ele tenta demonstrar através de um sistema matemático como conduzir uma boa vida. A pedra fundamental do sistema de Spinoza é a indiscutível existência de Deus. Tudo o mais no seu sistema se desenvolve a partir dessa verdade. Ele chegou a essa verdade ao tentar resolver o problema proposto pela opinião de Descartes de que o universo consistia de duas substâncias: mente e matéria. Descartes chamou-as de “substâncias finitas”. Além delas está Deus, a “substância infinita”. Spinoza achou isso contraditório.
Spinoza concordava com a definição de Descartes de substância como algo que não depende de nada mais para existir, mas achava que Descartes deveria ter parado quando identificou Deus como uma “substância infinita”, porque uma “substância infinita” possuiria também todas as propriedades das “substâncias finitas” — então, como poderia existir independentemente? Dessa forma, Spinoza foi capaz de argumentar que Deus não está separado do resto do universo, como Descartes (e praticamente todo o mundo) havia pensado. Em vez disso, Deus e o universo são uma mesma e única coisa. Spinoza insistiu que Deus e a natureza são uma mesma substância e que mente e matéria são apenas formas diferentes nas quais Deus aparece. Spinoza pensou que deveria haver muitas outras formas de Deus aparecer, mas que os sentidos humanos são limitados demais para perceber. A crença de Spinoza em uma só substância fez dele um “monista”.
Spinoza também era “determinista”, pois acreditava que tudo que acontecia no mundo fazia parte de um plano divino. Isso parecia negar a possibilidade de liberdade no sistema de Spinoza. Mas ele discordava, argumentando que o único jeito de ser livre é aceitar o que se é. Spinoza acreditava que conhecer a si próprio é parte do caminho para entender Deus. Isso faz sentido nos termos do sistema de Spinoza, porque se Deus está em tudo e em todo lugar cada pessoa é uma parte de Deus. Spinoza disse que quanto mais as pessoas compreendessem seu relacionamento com o resto do mundo, mais livres se sentiriam. A conscientização de que não há casualidade é libertadora porque livra as pessoas de serem governadas por suas emoções. Para Spinoza, não era “razoável” sentir raiva se alguém o magoa. Isso não faria sentido. Não mudaria nada. Uma pessoa que tenha a clara compreensão do mundo (portanto, de Deus) aceita tudo o que acontecer.
Para Spinoza, as pessoas mais felizes são aquelas que colocam Deus em primeiro lugar — não um Deus que existe como ser elevado, mas a soma total de tudo e todos no cosmos. Assim, Spinoza acreditava ter inventado uma forma perfeitamente racional de ética. As pessoas que agem de modo generoso são felizes porque com certeza estão conduzindo uma boa vida.

GOTTFRIED LEIBNIZ (1646—1716)




O alemão Leibniz foi o último grande filósofo racionalista. Diferentemente de Spinoza, que pensava haver apenas uma substância, Leibniz acreditava que o universo é feito de um número infinito de substâncias, sendo cada uma única. Ele chamou essas substâncias de “mônadas” e argumentou que cada mônada refletia tudo o mais no universo.
E possível imaginar o que Leibniz queria dizer imaginando um globo espelhado. Se você olhar um globo espelhado, verá seu reflexo e o que está no espaço ao seu redor. Entretanto, em vez de apenas refletir o espaço imediatamente ao redor, as mônadas de Leibniz refletem todo o universo. Isso significa que, no mundo, tudo está conectado, ou interrelacionado. Em vez de pensar o mundo como uma complexa confusão de espaço, tempo e matéria, Leibniz introduz a ideia de que cada momento e lugar estão conectados a outros. Nenhuma mônada está desconectada.
Entretanto, Leibniz também argumentou que as mônadas não agem umas sobre as outras, e sim que cada uma segue seu caminho desde o início. Segundo Leibniz, tudo o que existe e acontece, o faz por causa de uma razão. Não haver uma razão, pensou, seria irracional. Essa foi a pedra fundamental do sistema de pensamento de Leibniz. Assim como muitos filósofos antes dele, Leibniz investigou a causa de “tudo o que é” em Deus. Foi Deus que colocou em movimento uma miríade de mônadas, que fizeram a realidade, e cada mônada carrega dentro de si tudo o que existirá.
Leibniz chamou essa ideia de que tudo é antecipadamente programado por Deus de “harmonia pré-estabelecida”. Afirmava que este mundo é apenas um de um número infinito de mundos possíveis. Mas, por Deus ter escolhido fazê-lo existir, é lógico que deve ser o melhor de todos os mundos possíveis. Isso porque se Deus é um ser perfeito, ele nunca teria escolhido nada que não fosse o melhor.


EMPIRISMO





Empirismo é o oposto de racionalismo. Os empíricos acreditam que o verdadeiro conhecimento do mundo é obtido através dos sentidos, e não através da razão. Esses filósofos argumentam que temos ideias apenas porque temos percepções. Todo conhecimento é baseado na experiência.


JOHN LOCKE (1632-1704)




LOCKE discordou do racionalismo de Descartes e não tinha nenhuma inclinação para utilizar a religião como base de seu pensamento, como Descartes havia feito.
Seu livro mais importante de filosofia chama-se “Um ensaio sobre o entendimento humano”. Neste livro, Locke tentou demonstrar como as pessoas adquirem conhecimento. Ele descreveu os filósofos como “auxiliares” dos cientistas, porque uma das tarefas do filósofo era tirar os obstáculos do caminho que leva à obtenção do conhecimento.
O primeiro desafio de Locke no livro é se as pessoas já nascem com ideias ou se as adquirem por meio de experiências. Ele se decidiu cuidadosamente pela experiência. Segundo Locke, a mente de um recém-nascido é uma lousa vazia. A partir de então, sua mente é bombardeada com um fluxo de informações obtidas pelos sentidos. Locke chama essas primeiras impressões do mundo de “ideias sensoriais”, que devem incluir a experiência da cor vermelha e do peso de uma maçã. Estas são ideias “simples”, que não podem ser analisadas. Para quem não entende o vermelho, ele pode ser apenas mostrado, não explicado. Ideias simples são a base de todo o conhecimento. Em uma primeira instância, essas ideias são recebidas passivamente pela mente, que então reflete sobre elas. A mente se torna ativa quando começa a combiná-las em ideias “complexas”. Por exemplo, um unicórnio é uma combinação de ideias simples. Locke chamou esse tipo de ideia de “complexa” porque elas não têm base na realidade percebida pelos sentidos.
Locke foi desafiado por aqueles que disseram que sua teoria não fez nada para explicar se a realidade é real ou se é apenas um conjunto de ideias causado pelos sentidos. Ele tentou responder isso fazendo uma distinção entre as qualidades primárias e secundárias das coisas. Argumentou que todas as coisas do mundo exterior têm qualidades que são parte da coisa em si e que não podem ser separadas. Por exemplo, se fecharmos todos os nossos sentidos para uma laranja, sem sentir seu cheiro, seu gosto, ver sua cor ou sua forma, a laranja ainda terá forma, peso e densidade. Locke chamou essas qualidades de “primárias”. A cor, o gosto e o cheiro da laranja são as qualidades “secundárias”. Locke disse que as qualidades secundárias são produzidas na mente em resposta ao estímulo de nossos sentidos. Dessa forma, acreditou ter provado que há um mundo externo real e que a existência das coisas não depende de nossa percepção.
Locke então se deparou com a questão de se esse mundo objetivo de coisas é tudo o que há. Ele reconheceu que deve haver um “algo” mais básico — e admitiu que não havia encontrado nenhuma pista sobre o que seria.

DAVID HUME (1711-1776)




HUME usou um método de duas pontas para testar a verdade sobre a realidade, comumente chamado de “forquilha” de Hume. Em uma ponta da forquilha estão todas as verdades que são conclusões lógicas do raciocínio. Entre elas estão todos os cálculos matemáticos (como 3+2=5) e verdades auto-evidentes (como a afirmação: todas as mulheres são fêmeas). Hume concluiu que a razão, portanto, nos revela muito pouco do mundo. Na outra ponta da forquilha estão o que Hume chamou “matérias de fato”. Essas são todas as coisas que aprendemos sobre o mundo através da experiência direta. Assim como Locke, era opinião de Hume que todo o conhecimento útil sobre o mundo vem do que experimentamos através dos sentidos.
Hume usou essa abordagem de duas pontas para examinar todas as ideias possíveis de realidade, na busca pela verdade. Ele achava que sua forquilha atingia muito pouco do que responderia qualquer das grandes perguntas da filosofia, como “Existe um Deus?”. Quando Hume aplicou seu método a essa questão, concluiu que o conceito de Deus não poderia estar ligado à experiência direta. Portanto a existência de Deus não poderia ser provada nem contestada.
Hume disse que as pessoas conseguiriam ter certeza de muito pouco. Seu método o levou a ser cético em relação a tudo o que falhasse em seu teste — mesmo que previamente aceito pelas leis da natureza. Por exemplo, ele argumentou que não podíamos estar certos de nossa crença em causa e efeito. Seu exemplo mais famoso é o de uma bola de bilhar batendo em outra, fazendo-a mover-se. Pode-se observar diretamente que um evento segue o outro e também uma bola batendo na outra. Mas não se pode observar a “causa”, ou a relação necessária entre os dois acontecimentos, apesar de se experimentar a seqüência muitas vezes. Ele disse que nós esperamos que uma bola se mova se outra bater nela, mas tal não significa necessariamente que isso sempre acontecerá. Da mesma forma, Hume questionou a lei da gravidade. Disse que esperamos que um objeto caia se for solto porque sempre observamos que é isso o que acontece. Ele afirmou que as leis da natureza são, na verdade, apenas expectativas introduzidas em nossa mente, que então projetamos no mundo. Essas expectativas são construídas por nossas experiências anteriores do mundo. Se amanhã soltarmos um vidro e ele não cair, nossa crença na gravidade será destruída. A questão de Hume era que a experiência passada não garante a experiência futura. Ele quis permanecer aberto à natureza da realidade, motivo por que adotou uma abordagem tão cética.
Outra ideia que desafiou Hume foi a de se podemos saber quem somos. De acordo com seu método, não pode haver nada como o “eu”, no sentido de uma identidade constante e imutável. Sempre que tentou olhar a si mesmo, encontrou-se em um processo de sentir alguma coisa, seja calor, frio, felicidade ou raiva. No auge, acreditou ser um “feixe de percepções” que mudavam constantemente. Em outras palavras, além de duvidar que permanecia a mesma pessoa ao longo da vida, ele também duvidou que fosse a mesma pessoa de um momento ao outro! Hume disse que apenas a cegueira da familiaridade evita que as pessoas se dêem conta disso.
Hume discordou da ideia de que a moralidade é uma questão de razão. Para ele, são nossos sentimentos que nos dão o senso de o que é certo e errado. A compaixão nos motiva a ajudar os outros ou a colocar as necessidades alheias acima das nossas. Ele argumentou que não podemos deduzir o que é bom ou ruim a partir de fatos sobre o mundo. O julgamento vem de dentro, através da reflexão sobre nossos sentimentos e da empatia. Isso conta para o fato de as pessoas terem diferentes valores morais. Hume apontou que seria mais “razoável” tomar decisões frias ou agir com egoísmo. Ele disse: “Não é contrário à razão preferir a destruição de todo o mundo a sofrer um arranhão em meu dedo.”

IMMANUEL KANT (1724-1804)

KANT era um racionalista, pois nunca questionava o poder da razão para deduzir verdades além da experiência humana, até se deparar com o empirismo de David Hume. Kant escreveu que Hume o acordou de seu “sono dogmático”. Entretanto, Kant não se tornou um empírico. Em vez disso, escolheu o que era importante em cada escola e sintetizou tudo em uma filosofia. Isso ficou conhecido como a “Síntese de Kant”.
Kant achava o ceticismo de Hume desafiador. Hume havia concluído que o conhecimento além da experiência humana é impossível e que a experiência podia revelar muito pouco de certo às pessoas. Kant queria encontrar um jeito de sair desse terrível impasse. Começou tentando descobrir as capacidades do pensamento humano. O resultado foi o livro “Crítica da razão pura”.
Suas conclusões reviraram as afirmações de Hume de que a gravidade e outras “leis naturais” são meramente expectativas causadas pela repetição das experiências. Kant argumentou que essas leis são parte da construção, ou estrutura, da própria mente humana. Em outras palavras, as pessoas já são préprogramadas ao nascer com um conjunto de regras para estruturar sua experiência do mundo exterior.
Kant também se interessou pela ética. Ele discutiu as afirmações de Hume de que certo e errado são julgamentos pessoais baseados na experiência. Kant acreditou que poderia elaborar um caminho racional para distinguir as ações boas das más. Ele argumentou que uma ação seria errada se o resultado de todos a praticando causasse um problema universal. Por exemplo, ele considerava errado mentir. Kant argumentou que se todos mentissem, ninguém poderia confiar na palavra de ninguém, e o resultado seria desastroso. Da mesma forma, uma ação é correta se sua prática generalizada traz benefícios para todos.

KARL POPPER (1902-1994)

POPPER queria solucionar o problema que Hume deixou para a filosofia. Hume afirmou que, quando pensamos estar observando uma lei da natureza, na realidade estamos apenas projetando nossas expectativas no mundo. Ele argumentou que nossa experiência do passado não garante o que experimentaremos no futuro.
Popper se deu conta de que a conclusão cética de Hume pôs em dúvida todo o método científico. Hume estava colocando a credibilidade científica em leis naturais como a gravidade no mesmo nível da conclusão de que “todas as vacas são marrons” (em um contexto em que ninguém nunca tivesse visto uma vaca que não fosse marrom). O objetivo de Popper era tentar restaurar a fé na ciência.
Popper concordava com Hume que a ciência não pode ser matéria de certezas, ou ter verdades inquestionáveis. Mas discordava que isso a tornasse inútil. Através de seu método de “falseamento”, Popper mostrou ser possível verificar se algumas colocações científicas são erradas. Em oposição, as não-ciências, como a astrologia, não podem ser verificadas, não se pode provar se estão certas ou erradas. Mas a cada vez que a ciência é refutada, chega mais perto da certeza. Por exemplo, se achamos, por experiência própria, que todas as vacas são marrons e vemos uma vaca branca, então acrescentamos a nosso conhecimento outras cores de que as vacas podem ser. Em outras palavras, estamos nos aproximando mais da verdade sobre a cor das vacas.

OS PRAGMÁTICOS

O pragmatismo é uma visão prática da filosofia. Os pragmáticos julgam a verdade de uma ideia em relação à sua utilidade na vida real. Esta escola foi o primeiro grande movimento filosófico originado na América do Norte.


CHARLES SANDERS PEIRCE (1839—1914)

PEIRCE inventou o termo “pragmatismo”. Com ele, queria designar um método que esclarecesse o relacionamento entre pensamento e ação. Segundo Peirce, as ideias que não têm valor concreto na experiência do dia-a-dia são sem significado.

WILLIAM JAMES (1842—1910)

JAMES foi influenciado por Peirce. Ele apurou o pragmatismo a partir de uma teoria geral de significado para uma filosofia simples e prática. Ele acreditava que a veracidade de uma ideia repousa em seu valor prático, significando que é verdadeiro se for útil. O pragmatismo de James era subjetivo no sentido de que ele reconhecia que a mesma ideia poderia ser útil para uma pessoa e não para outra. Embora admirasse a forma como James reformulou sua teoria abstrata em uma filosofia completamente desenvolvida, Peirce tentou separar sua teoria original, renomeando-a pragmati-ci-smo. E disse que essa palavra era “feia o suficiente para ficar a salvo de raptores”.

JOHN DEWEY (1859-1952)

As principais influências sobre Dewey foram William James e o naturalista Charles Darwin — que publicou sua teoria da evolução no ano em que Dewey nasceu. O trabalho de Darwin fez Dewey ver a consciência como parte da natureza, em vez de uma faculdade à parte. Dewey via a mente como uma ferramenta para resolver problemas, que se adapta continuamente ao meio ambiente da mesma forma que os seres desenvolvem diferentes características.
Dewey acreditava que à medida que os organismos se tornam mais complexos, o mesmo acontece com sua capacidade de lidar com o meio. Em primeiro lugar há o comportamento instintivo. Depois, os hábitos se desenvolvem. Quando estes deixam de lidar propriamente com as situações, o organismo desenvolve a habilidade de raciocinar, ou pensar no que fazer. Dewey sustentou que todos os pensamentos são apenas ideias para a ação. Dessa forma um organismo adquire conhecimento sobre o mundo.

OS FENOMENOLOGISTAS

A fenomenologia estuda como as coisas são apresentadas ou representadas. Os fenomenologistas tentam ir além da aparência, ou superfície sensível, para revelar a natureza da consciência em si.


EDMUND HUSSERL (1859-1938)

HUSSERL foi o fundador da fenomenologia. Ele quis abolir as teorias sobre a realidade e restaurar a certeza na filosofia. Seu método era descrever exatamente como a realidade se apresenta à consciência. Ele quis transformar a filosofia em uma ciência precisa. Acreditava que sem isso as ciências tradicionais não teriam uma base firme e nunca poderiam ter certeza do que estavam fazendo. A filosofia de Husserl começa com o que ele chamou de “ponto de vista natural”, o mundo cotidiano experimentado por cada indivíduo. Seu método é realizar uma “redução fenomenológica” dessa experiência. Isso leva a ignorar todas as suposições pessoais, filosóficas e até científicas previamente adquiridas sobre uma coisa e então examinar o que restou. O objetivo é revelar exatamente como a mente funciona. Husserl acreditava que é possível retroceder e realizar uma redução fenomenológica da consciência em si. Ele chamou essa consciência “pura”, que seria capaz de observar a consciência “cotidiana” trabalhando, de “ego transcendental”. Isso poderia ser o começo de todo o conhecimento.
Apenas uma pequena parte do que Husserl escreveu foi publicada. A maioria de seus textos permanece em um arquivo na Bélgica.

MARTIN HEIDEGGER (1889—1976)

HEIDEGGER foi o aluno mais famoso de Husserl e trabalhou como seu assistente. O principal interesse de Heidegger era a existência (ou “ser”) em si, baseado na questão fundamental filosófica: “Por que há algo em vez de não haver nada?”. Em seu trabalho mais famoso, “O ser e o tempo”, Heidegger usa o método da redução fenomenológica de Husserl para descrever a existência humana. Entretanto, a versão de Heidegger da fenomenologia não separa o mundo exterior da consciência humana individual. Ele achava que não podemos nos separar do mundo. Em primeiro lugar somos todos “seres-no-mundo”. Heidegger inventou uma porção de palavras compostas, porque julgou a linguagem limitada demais para descrever a espécie humana. Heidegger identificou “cuidado” como a característica que separa a humanidade do resto da existência. Com isso ele quis se referir ao interesse ativo que as pessoas demonstram por tudo o que percebem, como família, animais de estimação, política, história e o futuro.

MAURICE MERLEAU-PONTY (1908—1961)

MERLEAU-PONTY emprestou muitas ideias de Husserl. Sua objeção básica à fenomenologia de Husserl era que estava baseada na experiência mental em vez de na corporal. Em seu primeiro grande livro, “A fenomenologia da percepção”, Merleau-Ponty argumentou que a maneira como usamos nosso corpo determina como experimentamos o mundo. Assim como Kant, ele acreditava que todas as nossas ideias vêm de impressões sensoriais que são moldadas por certas regras de entendimento. Mas ele discordou que essas regras fossem puramente mentais. Acreditava que o entendimento é moldado por regras do corpo. Neste livro, ele demonstrou como as pessoas cujo corpo foi lesado ou debilitado experimentam o mundo diferentemente.

OS EXISTENCIALISTAS

Os existencialistas acreditam que não há ordem no universo e não há objetivos certos ou errados. Os indivíduos são livres para criar sua própria vida de acordo com as escolhas que fizerem, e devem ser responsáveis por suas ações.


SØREN KIERKEGAARD (1813—1855)

KIERKEGAARD é visto por muitos como o pai do existencialismo, por seu ataque à opinião de Hegel de que os indivíduos são menos importantes que seu contexto histórico. Este filósofo dinamarquês rejeitou o sistema hegeliano de um processo aberto que deixou às pessoas pouco ou nenhum livre arbítrio. Ele acreditava que as pessoas são livres para escolher sua experiência, e que é moralmente errado esquivar-se dessa responsabilidade. Ele incitou as pessoas a serem honestas consigo mesmas ao fazerem escolhas de vida, que ele via como extensões da fé.

JEAN-PAUL SARTRE (1905-1980)

SARTRE estudou fenomenologia com Husserl e também foi influenciado pelas ideias de Heidegger. Sartre levou a fenomenologia ao existencialismo. Heidegger mencionara pessoas “inautênticas”, referindo-se àqueles que se recusam a aceitar a responsabilidade pela própria existência. Heidegger achava que encarar a certeza fatal, ou inquestionável, da morte obriga as pessoas a valorizar sua existência e a fazer algo para sua vida.
Para Sartre, os verdadeiros existencialistas são pessoas “autênticas”, que encaram a realidade de frente e assumem o controle de sua vida. A habilidade de escolher e agir é a base da liberdade humana. Sartre rejeitou a ideia de uma autoridade externa, como Deus ou razão cósmica, para guiar as pessoas. Ele via isso como uma ilusão criada para confortar mentes desesperadas. Aceitar a responsabilidade pelas próprias escolhas pode trazer muita ansiedade ao momento de decisão. Para Sartre esse era o preço da liberdade.
Sartre explorou suas ideias em “O ser e o nada”, seu livro mais famoso. O título reflete dois modos de existência que ele identificou no mundo. Uma coisa que existe apenas por “estar” lá, como uma pedra, existe “em si”. Em oposição, a consciência é “nada”. Ela existe “por si” e é capaz de se envolver com o mundo. As pessoas, em sua maioria, vivem como se fossem pedras na praia, incapazes de mudar a si ou ao mundo ao seu redor. Os existencialistas desafiam os limites dessa situação vivendo “por eles mesmos”.

OS FEMINISTAS

Os feministas acreditam que a sociedade está baseada em uma divisão desigual entre homens e mulheres. A “primeira onda” feminista se dedicou à igualdade entre os sexos. A “segunda onda” feminista se interessou mais pelo que é especial para as mulheres terem sua importância reconhecida e valorizada.


SIMONE DE BEAUVOIR (1908-1996)

O livro de Simone de Beauvoir, “O segundo sexo” (1949), deu início à segunda onda feminista. O livro mostra como os homens são vistos como normais, e as mulheres, como o “outro” ou o “segundo” sexo. Simone de Beauvoir considerou que essa visão sobre as mulheres domina todos os aspectos da sociedade e influencia como são tratadas e como tratam a si mesmas. Ela disse que “Ninguém nasce, mas se torna, uma mulher”. Simone de Beauvoir quis expor a máscara masculina que a filosofia ocidental havia vestido ao longo dos séculos.



OS PÓS-MODERNOS

O pós-modernismo é um movimento filosófico relativamente recente. Recebeu esse nome porque começou como uma reação contra a idade “moderna” da filosofia, iniciada com Descartes. Descartes abriu caminho para os sistemas que pretendiam descobrir as verdades fixas e absolutas sobre o universo. A opinião dos pós-modernos é que a filosofia está zombando de si mesma. O pós-modernismo é uma escola aberta e existem diferentes opiniões sobre quais filósofos pertencem a ela.


HERÁCLITO (536-470 a. C)

HERÁCLITO viveu há mais de dois mil anos, mas suas ideias são tidas hoje como verdadeiramente “pós-modernas”. Isso porque ele acreditava que a única coisa que permanece constante no universo é que tudo muda. Portanto, Heráclito foi o primeiro filósofo ocidental a sugerir que nunca podemos ter conhecimentos que durem para sempre.

FRIEDRICH NIETZSCHE (1844-1900)

NIETZSCHE rejeitou a ideia de uma verdade superior. Ele disse: “O mundo aparente é o único mundo: o ‘mundo real’ é mera mentira”. Ele concordava com a visão de Heráclito de que o mundo está mudando constantemente. Para Nietzsche há apenas fluxo e caos, que podem ser criativamente forçados à forma de desejo individual. Ele acreditava que todas as aspirações ao conhecimento são mentiras baseadas em auto-decepções. E ainda que a linguagem é uma das maiores de todas as decepções. Nietzsche alertou para o quão limitadas ou distorcidas as palavras podem ser. Por exemplo, a referência a coisas no plural ou no coletivo, como árvores, matas, flores, buquês, casas, bairros e assim por diante promove semelhanças e elimina diferenças. Nietzsche achava que as opiniões que temos sobre o mundo são apenas artifícios úteis para lidarmos com a vida. Entretanto, ele pensava que acreditar que toda ação tem uma causa leva à falsa crença em um eu superior. Ele disse: “Um pensamento vem quando ele quer, não quando eu quero”.

LUDWIG WITTGENSTEIN (1889-1951)

É o trabalho do Wittgenstein maduro que pode ser visto como pós-moderno. O jovem pensou ter encontrado certeza e precisão na linguagem. Quando velho, Wittgenstein discordou intensamente de seu eu anterior. O Wittgenstein velho afirmou que todo o significado da linguagem depende de como as palavras são usadas. Ele falou sobre “jogos de linguagem”, isto é, que a linguagem tem certas regras de uso como qualquer jogo. Disse que quando as regras são quebradas “a linguagem sai de férias”. Wittgenstein gostava muito dos livros infantis “Alice no país das maravilhas” e “Através do espelho”. Eles contêm muitos exemplos de como o sentido pode ser invertido quando as regras da linguagem são quebradas. Por exemplo, uma promessa de “geléia qualquer outro dia” nunca é cumprida porque nunca será “qualquer outro dia”. Segundo Wittgenstein, qualquer busca filosófica pelo conhecimento da verdade absoluta não tem sentido, é um exemplo perfeito para a “linguagem de férias”.

THOMAS KUHN (1922-1996)

Kuhn foi o primeiro filósofo a questionar se existem verdades fixas na ciência. Ele argumentou que a verdade que os cientistas descobrem é relativa apenas aos tempos em que vivem. Kuhn declarou que os cientistas não podem escapar de seu condicionamento histórico. O pensamento deles é limitado pelo total do conhecimento disponível. Esse condicionamento histórico é semelhante às lentes de Kant. É inevitável que os cientistas só vejam a realidade sob uma certa perspectiva. Às vezes uma grande descoberta altera essa perspectiva (é o que Kuhn chamou “mudança de paradigma”). Porém as velhas lentes da ciência são apenas trocadas. Isso não significa que a ciência chegou mais perto da verdade.

MICHEL FOUCAULT (1926-1984)



Foucault acreditava que nossa opinião sobre o passado muda de uma época para outra. O jeito como pensamos sobre a história nunca é neutro ou despreocupado. Foucault enfatizou o papel central que o poder exerce em nossa compreensão sobre o passado. O velho ditado “a história é escrita pelos vencedores” significa que os que estão no poder fazem ouvir apenas a sua versão sobre os acontecimentos. O trabalho de Foucault mostra que não há continuidade na história. As regras que estruturam a sociedade e governam a vida das pessoas estão em constante mudança. E aqueles que determinam as regras são os que detêm o poder.
Foucault também se interessou pelo “micropoder”, o poder que opera em uma escala muito menor. Ele mostrou como as autoridades de prisões, escolas e hospitais exercem o poder sobre os “internos” por meio de um sistema de regras: os que desobedecem as regras são punidos. Das investigações sobre o passado, Foucault obteve pouca esperança no futuro, dado que os avanços tecnológicos oferecem temíveis possibilidades de mal uso do poder.


JACQUES DERRIDA (1930-2004)



As ideias de Derrida, em muitos aspectos, são semelhantes às de Wittgenstein. Derrida concorda que o sentido das palavras depende de como são faladas ou escritas. Ele acredita que o modo como entendemos a nós mesmos e a nossa linguagem muda com o tempo: nada é fixo.
Uma palavra-chave para Derrida é “diferença”. Ele sustenta que tudo difere de tudo. Por exemplo, uma determinada palavra em um livro tem um significado diferente neste livro e em outro. E em qualquer livro, uma palavra tem significados diferentes nos diferentes capítulos.
Derrida argumenta que os filósofos que clamam ter descoberto verdades fixas e absolutas sobre o mundo não estão conscientes dos engodos que a linguagem prega em seus próprios escritos. Derrida escreveu sobre esses filósofos, e “desconstruiu” suas afirmações para descobrir esses engodos. O desconstrucionismo tornou-se um movimento popular além da filosofia, que influencia arquitetos e até estilistas de moda.



Referências:


MAGEE, Edgar Bryan. História da filosofia. Tradutor Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 2013. 242p.


THOMPSON, Mel. Filosofia: aprenda em uma semana, lembre por toda vida. São Paulo: Saraiva, 2014. 128p.

WEATE, Jeremy. Filosofia para jovens. Tradução: Helena Gomes Klimes. São Paulo: Callis, 1999. 64p.


12 comentários:

  1. maravilhoso vou tirar 10 no trabalho

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  2. Parabéns pela excelente abordagem, clara e direta que com certeza tem contribuído, e muito, para uma compreensão melhor para os leigos como eu.

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  3. Muito muito obrigada pelo seu post. Vou prestar vestibular daqui a uma semana, e a forma como as escolas filosóficas foram todas colocadas está sendo excelente para a minha revisão. Parabéns!!

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  4. A filosofia é deveras a melhor coisa a se conhecer pois é a chave para o entendimento e interpretação de qualquer assunto. Já havia implementado em minha mente ideias Idealistas e Racionalistas por conta própria sem ter o conhecimento da teoria e agora que conheço me identifico e fico impressionado com tudo que pude assimliar e com a qualidade destas ideias.

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  5. muito obrigado pela sintese que nos ofereceu.estou fazendo um trabalho de culminacao de licenciatura em Ensino de Filosofia e o meu autor de destaque e' Michel Foucault, porem ao longo da leitura fiquei muito barelhado, sobretudo pela localizacao deste autor nas correntes filosoficas. E' verdade que esta fonte coloca-lhe no pos-modernismo mas outras literaturas o citam no estruturalismo e pos-estruturalismo. A obra dele que estou usando e' " Historia da Sexualidade: Cuidado de Si". Ajude-me a situar este filosofo.

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  6. SANTO AGOSTINHO NÃO TEM NADA A VER COM FILOSOFIA ESCOLÁSTICA, MAIS SIM PATRÍSTICA.

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  7. ficaria melhor com referências, se possível gostaria de ter acesso a elas.

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